Entrevista com Gilson Victorino: “O potencial do Porto de Vitória é uma incógnita”

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26Out

01/01/1900
Entrevista com Gilson Victorino: “O potencial do Porto de Vitória é uma incógnita”



Entrevista com Gilson Victorino: “O potencial do Porto de Vitória é uma incógnita”

Com 45 anos dedicados a assuntos relacionados às ciências náuticas, à praticagem e à área portuária, o atual secretário executivo da Praticagem Espírito Santo, Gilson Victorino, analisa nessa entrevista os principais pontos relacionados aos projetos logísticos e econômicos do Estado, ao crescimento do Porto de Vitória nos próximos anos e à competitividade do comércio exterior capixaba.

Victorino é mestre em Ciências Náuticas pela Escola de Guerra Naval, tem especialização em submarinos e já ocupou cargos como comandante de navios, presidente do Conselho de Autoridade Portuária dos Portos Organizados de Vitória, Praia Mole e Barra do Riacho, capitão dos Portos do Espírito Santo e, atualmente, integra o Comitê Temático de Desenvolvimento da Logística e do Comércio Exterior do Movimento Espírito Santo em Ação.


1- No longo prazo, como o senhor vê o Porto de Vitória?

O Porto de Vitória chega ao presente desatualizado, em razão do longo abandono que sucessivos governos dedicaram às CiaDocas, depois de extinta a Portobras. Portos “naturais”, ou seja, aqueles que nasceram espontaneamente, como o Porto de Vitória, sempre exigiram esforços redobrados para superarem as limitações impostas pelos fatores geográficos, frente às necessidades de modernização (infraestrutura e mercado). E isso só se consegue com planejamento estratégico, gestão dinâmica e flexível continuidade. Não é esse o histórico que observamos no setor portuário estatal, onde nem mesmo uma clara política pública é de pleno conhecimento.

Assim, o potencial do Porto de Vitória é uma incógnita e deve ser construído a partir de um apropriado estudo de cenários prospectivos. A economia mundial, depois de um grande “boom” decorrente da globalização, parece aproximar-se de um ponto de inflexão com tal ímpeto arrefecido. Na presente hora, surgem indícios de regionalização e protecionismo.

Então, e por isso, se apresenta uma oportunidade rara para o desenvolvimento do nosso Porto de Vitória. Se naturalmente limitado para receber grandes navios, a alternância histórica dos ciclos econômicos, de novo, põe em nossas mãos a chance de oferecermos protagonismo na operação de excelência de navios de médio porte, ou especializados (supply boats). Mas, desde já, se tem que começar a preparação desse cenário, a meu ver, com investimentos na modernização de uma “estrutura” portuária adequada ao nicho identificável. As obras de infraestrutura realizadas, e em andamento, parecem ser suficientes para atender o que se poderia prospectar. Mas temos de estar “à frente” do fato econômico. Correr atrás, como se fez na busca de características portuárias que se ajustassem aos avanços da armação e das demandas pontuais do mercado, já se mostrou ineficaz. Perdemos! 


2- Após a finalização das obras do Porto de Vitória e uma maior profundidade do canal, o senhor acredita que o Porto terá um ganho comercial, recebendo navios maiores e com mais cargas?

Acredito que fizemos as coisas às avessas, como disse na resposta anterior, correndo atrás de “tendências” globais, quando antes deveríamos optar por atender os reclamos de um mercado conhecido ou prospectado. As obras deveriam ser consentâneas a uma realística matriz de carga regional. Assim não ocorreu. Então é difícil saber se as obras em andamento serão capazes de promover ganhos comerciais. Estivemos perseguindo metas dimensionais “ideais” (navio x cenário) incompatíveis. Não chegamos a termo, por óbvio, e já a armação transnacional, refém de suas próprias dificuldades, alterou o perfil de sua frota na costa brasileira, por um lado aumentando o porte dos navios a patamares impossíveis de demandarem Vitória, por outro reduzindo em 42% o número de navios presentes na costa brasileira, muitos desses os “alvos” de nossas obras.


3- O senhor acredita que existam alternativas de projetos portuários no Espírito Santo? Se sim, pode citar alguns exemplos?

Bem, as mudanças do cenário econômico global, ora apontando para a “desglobalização”, conjugado com o debacle da Petrobras, particularmente, nos objetivos da explotação marítima do petróleo, alteram, bastante, as análises que formataram projetos portuários no Espírito Santo.

De modo geral, os projetos existentes, como listados no PELTES, por exemplo, amparam um pujante desenvolvimento portuário para o Estado. Nada que já seja do conhecimento público estaria, então, inviabilizado. Todavia, tudo requer ajustes, até mesmo para adequar os objetivos capixabas à realidade interposta por instalações portuárias de estados lindeiros que, nesse ínterim, se tornaram operacionais.

O cenário atual, real e prospectado, nacional e regional, parece mostrar inexequível a consecução de um porto público de águas profundas. Não seria despropositado perseverarmos nessa direção, mas, em minha opinião, seria esforço condicionado a incógnitas que nos fogem ao controle, assim podendo resultar inútil. Risco inaceitável.


4- O que é necessário para o Estado possuir um porto competitivo para operações de contêineres?

Vontade! Em seguida, decisão empresarial (não creio que no momento seja hábil se contar com o investimento público) para se elaborar um realista estudo de adequabilidade, exequibilidade e aceitabilidade, isento de anseios localizados e de ilusões; e apoio governamental na agilização dos trâmites burocráticos.

Instalações como essas são pontos focais que exigem grandes retroáreas, grandes volumes de carga e a existência de eficientes entroncamentos rodo-aéreo-ferroviários. Na direção direta da maior ou menor disponibilidade dos fatores acima elencados, a maior ou menor possibilidade de constituirmos um “hub port” ou uma instalação para operação de cabotagem ou “feeder”.


5- Quais são suas perspectivas para a logística de cargas marítimas no Estado?

Não vejo boas perspectivas no presente cenário, mas isso não me preocupa. Justo nesses momentos, onde parece termos chegado ao limite, é que surgem as soluções criativas que fazem a diferença. O Estado e seus empresários, a sociedade organizada, por fim, precisam identificar o nicho onde mais bem possam explorar a vocação capixaba, seja ela qual for. Infelizmente, na ausência de uma clara política pública para os Portos, com o marco regulatório do setor titubeando entre inseguranças jurídicas, sinto que seguimos a reboque de estratégias de outrem, não necessariamente adequadas à realidade do Estado do Espírito Santo. Sinto que restringimos o alcance e a profundidade das operações portuárias do Porto de Vitória. É hora de sermos protagonistas. Buscarmos e disputarmos, com determinação, o nicho de negócios que queremos. É o que penso.


6- Quais os pontos de destaque do traçado da Poligonal do Porto de Vitória? Quais seriam as vantagens e desvantagens?

 

Há muito se exigia o estudo da poligonal do Porto de Vitória. O adensamento urbano criou uma realidade de áreas que não mais se coadunava com o traçado feito alhures. O que foi mostrado em audiência pública apresenta avanços significativos para liberação e aproveitamento do potencial de exploração comercial do porto, contudo, não foi suficiente para pacificar a questão de áreas, em verdade, também deixou reforçadas históricas polêmicas, reacendendo latentes questões jurídicas.

FONTE: SINDIEX